O Bode Expiatório
Quando há dias vimos pelas imagens de televisão a campanha organizada que visa o combate a algumas espécies florestais, não gostámos. A presença do mais Alto Magistrado da Nação, instrumentalizado também por quem conduz esta campanha, deixou-nos algo perplexo e preocupado. Embora não sejamos técnico florestal, temos a noção do que vale a floresta no meio rural e de quais são as espécies arbóreas com maior valor económico para os proprietários rurais.
Foi por isso com grande curiosidade que lemos há escassos dias um Manifesto para uma Floresta não Descriminada, um documento subscrito por muitas dezenas de instituições ligadas à investigação, a indústria, ao poder local e várias centenas de personalidades, bem conhecidas do público em geral, pelas funções relevantes que a maior parte deles, exerce ou exerceu ao serviço do país.
Este documento é um manifesto da preocupação, que os signatários observam pela campanha anti-eucalipto, a quem é imputada a responsabilidade pelo drama dos incêndios florestais. A desinformação que se vem verificando fere a Floresta, escrevem os autores, contribuindo para que não se encontre o caminho adequado para evitar o flagelo dos incêndios que se agudizou nos anos recentes.
Identificam depois as verdadeiras causas dos incêndios, que estão na excessiva carga de biomassa no terreno, em resultado do reduzidíssimo nível de gestão da floresta e do excesso de matos incultos no território português.
Transcrevemos a este propósito, um paragrafo de um Relatório intitulado O Barril de pólvora do noroeste – Proposta ibérica para a prevenção de incêndios, onde se afirma: No Sul da Europa, os efeitos cumulativos do aquecimento global, o despovoamento rural e o abandono dos usos da terra, a falta de gestão florestal e uma cultura do fogo errada e profundamente enraizada criaram as condições perfeitas para os grandes incêndios. Este Relatório, produzido pela World Wide Fund for Nature (WWF), tipifica o caso do eucalipto, referindo que a presença desta espécie no território faz sentido desde que bem gerido e ordenado.
Sublinham ainda que para que haja um incendio têm que dar-se três elementos: alguém inicia um fogo – em Portugal só 2 % dos incêndios são iniciados por causas naturais, o território tem de ser inflamável e as condições meteorológicas têm que ser favoráveis.
O documento detalha também a questão da regeneração natural do eucalipto (que consideram normal) e referem a sua importância para as regiões, para as populações rurais e para a economia. Atacar o eucalipto é atacar a espécie florestal que mais contribui, a uma larga distância, para a absorção de CO2, em Portugal, comummente aceite com a batalha essencial para mitigar os nefastos impactos das alterações climáticas. Referenciando que é preocupante saber-se que Portugal é o único país da Europa em que se tem verificado uma redução da área florestal. Ora, trabalhar para reverter esta situação deve-nos preocupar enquanto sociedade, mesmo para quem não goste do eucalipto.
Finalmente permitimo-nos, com a devida vénia, aos próprios, mencionar os nomes dos professores, investigadores e técnicos da nossa Universidade, a UTAD, que assinam este documento: Prof. Domingos Manuel Mendes – Dir. Dep. Ciências Florestais; Prof. João Manuel dos Santos Bento – Prof. Associado (aposentado); Prof. Luís Filipe Gomes Lopes – Dir. Licenciatura Eng. Florestal; Prof. Paulo Alexandre Martins Fernandes – Membro da CTI; Prof.ª Maria Emília Calvão Moreira da Silva – Prof. Auxiliar e Prof.ª Simone da Graça Pinto Varandas – Prof.ª Auxiliar.
Bem hajam. Se o bom senso prevalecer e os nossos conselhos forem ouvidos, voltaremos a ter Floresta ordenada em Portugal. É o que se deseja.

