A Desconcentração do Ensino Superior
Como medida para ir invertendo a tendência de despovoamento do interior, o Governo decidiu, e bem, a pedido dos Estabelecimentos de Ensino Universitário situados no interior do país, que se retirassem 5 % aos numerus clausus, das Universidade sediadas no litoral, em particular Lisboa e Porto e se distribuísse essa capacidade acrescida pelos estabelecimentos de ensino situados no interior, como Vila Real, Guarda, Bragança, Évora e até Algarve.
É uma medida tímida, mas sempre é um sinal.
Pois bem. Parece que esta decisão não agradou às Universidades de Lisboa (não sabemos se também às do Porto), de tal forma que, aproveitando a abertura solene do Ano Académico, na passada semana, na presença inclusive do Presidente Marcelo, o Reitor da Universidade de Lisboa, de seu nome António Cruz Serra, do alto da sua cátedra, achou absurda tal medida, uma vez que se estava a obrigar alunos a matricular-se onde não queriam e onde (ele não o disse mas deu-o a entender) o ensino ministrado não tem a categoria das Faculdades de Lisboa ou Porto.
Na altura não achámos graça nenhuma àquela tirada de tão mau gosto e admitimos que os colegas universitários dos Estabelecimentos de Ensino Superior situados no interior, se encarregariam de lhe dar resposta adequada. Pois bem, o cavalheiro (dito reitor), não se ficou pelo discurso. Aproveitou o Jornal Público de 27 de setembro e em entrevista de duas páginas, com o título "Nenhum filho de um CEO do PS20 irá estudar para o interior". Para os menos familiarizados com esta linguagem, referia-se sua Excelência aos filhos dos donos ou administradores das grandes empresas cotadas em Bolsa. E nesta entrevista explicita assim, o seu destorcido pensamento afirmando que se as melhoras Universidades portuguesas pudessem abrir um número ilimitado de vagas nalguns cursos, secavam o sistema para as outras Universidades. " Quando falo neste assunto não estou preocupado com as Universidades, mas com os alunos e as famílias. Não consigo compreender uma medida que impede que os alunos estudem nas melhores Universidades".
Isto é um atestado de incompetência que é passado às Universidades situadas no interior, a que nós esperamos que o Presidente do Conselho de Reitores, Professor Fontainhas Fernandes, Reitor da nossa UTAD, venha a dar uma resposta pública adequada. Pois que nós saibamos, em todas as Universidades, há cursos melhores e há outros piores. Depende do seu corpo docente e da investigação que nela se faz.
Exemplificativamente diremos, que não há no país nenhum curso de Enologia, melhor de que o da UTAD, como está comprovado e provavelmente o mesmo se poderia dizer de cursos como a de Veterinária, ou de Ciências Agrárias, com reconhecidos resultados, designadamente no domínio da Investigação aplicada.
O desenvolvimento do interior faz-se com recursos, não é forçando os alunos a irem estudar para as Universidades do interior, conclui sua Excelência. É uma opinião, que pessoalmente não partilhamos e que é desmentida com a realidade que se viveu em muitos países, como por exemplo nos Estados Unidos de América, onde nos séculos XVIII e XIX se abriam as Universidades a centenas de quilómetros dos centros populacionais mais expressivos, para obrigar ao povoamento desses locais (a cidade de UTAH é um exemplo que pessoalmente comprovámos).
Não Senhor Reitor. O seu campo de recrutamento de alunos não deve ser o interior despovoado. Atraia alunos estrangeiros de África, do Brasil ou dos países asiáticos, se é que tem capacidades excedentárias.
Com as divisas entradas por essa via, também ajudará a financiar as próprias Universidades da Capital.

