Caminhos-de-Ferro
A ferrovia portuguesa, temo-lo sublinhado algumas vezes, tem vindo a perder, ao longo das últimas décadas, o seu valor estratégico, para um país que se quer competitivo. Agora, chega-nos o alerta, por via dos próprios profissionais do sector, no caso o Coordenador da Comissão de Trabalhadores de Infraestruturas de Portugal e porta-voz da Comissão de Trabalhadores de quatro empresas do sector: " há motivos para alarme e de que maneira". Falam num estado de degradação visível nas linhas, na sinalização, nas estações, na falta de qualidade e quantidade da oferta de serviços (supressão, avarias) e nos frequentes descarrilamentos e temem mesmo, pela segurança dos utentes e trabalhadores.
Na semana passada, nota de roda pé nas estações televisivas, num dos dias de maior canícula, a CP avisava que tinha deixado de vender bilhetes para os comboios de longo curso, em virtude do sistema de ar condicionado das carruagens não responder às altas temperaturas verificadas no exterior.
Isto causou alarme nos passageiros "frequentes" que se devem ter interrogado, como é isto possível, num país que se diz de primeiro mundo. Mas, é bem exemplificativo também da forma caótica como vem sendo gerida a CP, que o comentador Miguel Sousa Tavares qualifica "como a pior empresa pública existente no nosso país". Não sabemos se é a pior mas, que se vem degradando de há décadas para cá, não há nenhuma dúvida.
Nós aqui por Trás-os-Montes, não podemos dizer bem da CP. Nos últimos quarenta anos, só temos visto desaparecer o seu serviço. Primeiro foi a suspensão de muitas composições, nas vias de linha estreita: Corgo, Tua, Sabor. Seguiu-se a suspensão total da circulação, entre Chaves e Vila Real, entre Bragança e Mirandela e em toda a linha do Sabor. Poucos anos volvidos, foi a suspensão total de comboios em todas estas linhas.
Mas, pior do que isso, foi a decisão inusitada de mandar arrancar os carris, que foram vendidos aos sucateiros, por preços irrisórios e suspeita-se que com alguma corrupção à mistura – os Tribunais ainda têm processos. Resta-nos a linha do Douro, no troço entre o Porto/Campanhã e Pocinho, uma vez que entre Pocinho e Barca de Alva já havia sido eliminada há muito tempo. Conhece-se o mau serviço prestado, o encerramento e abandono de muitas das estações e a fraquíssima procura deste cada vez mais obsoleto serviço.
Por isso é que, concluindo e repetindo-nos, temos vindo a insistir na necessidade de reformular tudo isto, aproveitando os fundos de coesão que a União Europeia tem à disposição do nosso país, para empreendimentos públicos transfronteiriços. Muitas vozes se fazem ouvir, de políticos, de empresários, da imprensa em geral e das autarquias representadas pelas Comunidades Intermunicipais, do Douro, do Alto de Trás-os-Montes e de todas as ribeirinhas.
É preciso começar, quase do nada, bem sabemos. Mas, é preciso que se tenha a noção de que esta nova via ferroviária, é que permitirá desencravar o desenvolvimento de uma região com tantas potencialidades.

