A Geringonça Espanhola
Há menos de duas semanas aconteceu no país vizinho (Espanha), um facto verdadeiramente insólito, em termos políticos, ao ter-se formado uma coligação de rejeição com a finalidade de derrubar o Governo em funções presidido por Mariano Rajoy, cujo partido o PP (Partido Popular) tinha sido o mais votado nas últimas eleições, embora não tenha logrado a maioria absoluta para poder governar sozinho. Derrubado o Governo, após aprovada a moção de rejeição ou censura, foi encarregue de imediato o líder do segundo partido mais votado o Partido Socialista (PSOE) a liderar um novo Governo, de que não se conhece à partida, nenhum projeto de governação nem ideia do cimento que una, ou venha a unir, as mais de duas dezenas de formações partidárias que se ligaram com a única finalidade de derrubar o governo em funções.
Isto que está a ocorrer na vizinha Espanha, já havia sucedido, com outros contornos certamente, na Grécia, onde o Siriza está a Governar às ordens da Troika, com um programa de sentido contrário ao seu, na Itália, onde dois Partidos totalmente antagónicos – um da Extrema Direita e outro da Extrema Esquerda se juntaram, para ocupar o poder (não para governar seriamente), e em Portugal, com uma Geringonça que fazendo crer que tem de suporte o Programa do Partido Socialista, vem na realidade a governar sob pressão de comunistas e bloquistas. É este o panorama das democracias dos países do Sul da Europa.
Vale a pena refletir um pouco, sobre o que está a acontecer às democracias de tipo ocidental que conhecíamos até há uns anos. Num fundamentado artigo de opinião subscrito por Santos Juliá (ABC, 4 de Junho) chama-lhes as coligações de rejeição, ou seja coligações negativas, que outros politólogos classificam também como reativas, que se organizam com maior facilidade indiferentes como são à heterogeneidade dos seus componentes: toda a gente pode pôr-se rapidamente de acordo em vetar um projeto de lei ou votar contra um Presidente de Governo.
Nesta nossa democracia do sul de Europa, com a maior fragmentação do sistema de partidos entrámos numa fase que podemos chamar de coligações de rejeição: todos os atores políticos sabem o que não querem, mas andam muito confusos sobre o que realmente querem.
Tratando-se desta espécie de Geringonça Espanhola, dificilmente se perceberá até onde poderão chegar os independentistas da Catalunha, que outra coisa não querem senão criar a sua própria nação independente, ou dos nacionalistas bascos, que têm sonho igual, após dezenas de anos de lutas fratricidas ocorridas no País Basco. E isto poderá conduzir ao desmantelar da Espanha que conhecemos.
Em Portugal não temos felizmente movimentos com ideias separatistas, mas as ideias fraturantes de algumas das nossas formações partidárias, como seja a título de exemplo a saída da moeda única ou da NATO, devem colocar-nos de sobreaviso, quando formos chamados de novo às urnas.
Temos por certo que estas coligações negativas em moda nos países do sul da Europa, são um atentado às democracias – que assentam no primado do fazer e não no da rejeição. Não será fácil que uma coligação negativa se transforme, por artes de magia, em coligação positiva. O que coloca em causa a democracia que assenta no primado dos programas sufragados nas urnas de voto.

