Será Desta?
As assimetrias do país ou se resolvem com murros na mesa ou o país continuará a desperdiçar os recursos de dois terços do seu território. É com estas palavras duras que Manuel Carvalho, um colunista prestigiado Público (18 Maio) conclui a sua análise ao documento que o chamado Movimento Pelo Interior apresentou em Lisboa no Museu dos Coches (porquê em Lisboa?), perante o Presidente da República, o Primeiro Ministro e a Comunicação Social.
Um movimento constituído por dez personalidades bem conhecidas, entre as quais: Fontainha Fernandes (Reitor da UTAD), os Autarcas Álvaro Amaro (PSD) e Rui Santos (PS), Miguel Cadilhe, Silva Peneda, Jorge Coelho e o empresário Rui Nabeiro.
No preâmbulo do Relatório, que propõe um conjunto de 24 acções para corrigir as graves assimetrias regionais do país, afirmam o que para nós é óbvio: se nada for feito o interior continuará a transformar-se progressivamente numa zona cada vez mais debilitada e crescentemente abandonada. Mas dizem também que não será só o interior a superar, porque o congestionamento do litoral vai continuar a exigir mais e mais investimento em infraestruturas de todo o tipo que nunca chegarão a ser suficientes para o afluxo populacional que continuará a ter como destino o litoral, com a consequente deterioração de qualidade de vida da população aí residente.
Alguns números, nesta faixa litoral de 50 quilómetros marcada a partir do oceano:
─ aqui vivem 70 % dos portugueses e só as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto agrupam 45% da população;
─ a densidade populacional média ronda os 350 hab./km2, enquanto no interior é de 0.28 hab./km2;
─ no litoral vivem 82 % dos portugueses com menos de 25 anos;
─ o interior perdeu um milhão de habitantes desde 1960, ou seja 37.5 % do total;
─ está localização na faixa litoral 83% de riqueza produzida, 89% dos alunos do ensino superior e 89% das dormidas turísticas).
Números que só impressionam quem não vive, aqui.
Nós há muito que o sabemos, mas as nossas palavras, nunca foram ouvidas. Oxalá agora o sejam, porque os subscritores deste movimento, têm a autenticidade do seu percurso de vida, técnico e político. E por isso descrevem as suas propostas como radicais, porque o radicalismo é um aviso contra o pensamento que pudesse conduzir uma vez mais às trivialidades do costume e a prática política das vãs grandes promessas.
Desenhado, estudado e debatido em várias cidades do interior, o programa de ação do movimento focou-se em três áreas temática: nos impostos, na educação e nas medidas para a ocupação do território pelo Estado. Ainda que seja necessário voltarmos a este tema, para descrever algumas das propostas, concluímos com a síntese que é feita do Relatório: o objetivo primordial é travar a desertificação humana do interior através da criação de empregos privados e da transferência de funcionários públicos.
Proximamente, se detalhará, como tudo isto será possível, se houver vontade política.
Desta vez, acreditamos que sim. Que haverá.

