Excessos Humanos da Natureza
A propósito dos efeitos da seca que no verão passado tão funestas consequências provocaram em grande parte do território nacional muito se tem escrito, e os cientistas esforçam-se por descobrir as causas das alterações climáticas, chamando à atenção para as responsabilidades que o homem tem na natureza.
Fernando Mano, doutorando em alterações climáticas e políticas de desenvolvimento sustentável, da Universidade de Lisboa, num texto publicado no Jornal Público, (4Abril) aborda a questão sob o ponto de vista das necessidades alimentares do homem e os seus efeitos na natureza, afirmando: não é possível conter o aquecimento global abaixo dos 2% conforme acordado em CANCUN em 2010 sem uma rápida mudança da dieta humana. Explica: A produção de carne, de lacticínios e de ovos é responsável pela emissão total de 7.1 Gt de CO2e (Gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente) em cada ano. Ou seja, a pecuária contribui hoje tanto ou mais para o aquecimento global do que todos os automóveis, aviões e barcos no seu conjunto...O maior de todos os problemas causados pela pecuária é a brutal emissão de dióxido de carbono gerada pela desflorestação em busca de novas áreas para se instalarem monoculturas (soja e milho) destinadas à alimentação animal. Isto acontece sobretudo na América Latina (Amazonas), sendo estes alimentos para os animais exportados para os países onde se come muito carne, como é o caso da União Europeia.
O autor, chama ainda à atenção e cita muitos exemplos de países onde se continua a comer muito carne, que ele considera um absurdo como Portugal onde o nível de consumo já e de 112.3 kg per capita em 2016, o que corresponde a mais do dobro recomendado pelas principais instituições de saúde, designadamente a OMS.
Atribuir, porém, ao exagera do consumo de carne o abate indiscriminado da floresta amazónica, parece-nos excessivo. A apetência pelas madeiras exóticas, tão abundantes nas florestas tropicais e equatoriais, também contribuirá em muito para a crescente desflorestação. Como evitá-lo? Ou no mínimo, como compensar estes danos? Em nossa opinião, promovendo o plantio de floresta, em tudo que sejam terrenos não apropriados para a agricultura, e que são, como todos sabemos, em dimensões muito superiores.
Temos referido, a propósito da catástrofe que se abateu sobre o nosso país no verão passado, que uma das formas, se não única, de compensar a natureza pelo desaparecimento arbóreo, é lançar de imediato um programa de reflorestação do país, para o que existem meios técnicos e conhecimentos científicos mais do que preparados para dar resposta a estes desafios. E isto que lembramos no nosso país pode aplicar-se por esse mundo fora, com uma legislação que obrigue a plantar no mínimo, um número pelo menos idêntico da mesma espécie ou similar. Assim se limitarão os efeitos nocivos que o desaparecimento das florestas provocam.
Sem embargo de se reconhecer, que os abusos alimentares pelo consumo excessivo de carne, por questões de saúde pública, também devam ser aconselhados. E não apenas pelos seus efeitos indiretos nas alterações climáticas.

