Carnavais
Carnavais há muitos como diria, com graça, o saudoso Vasco Santana. Estes que agora acabaram e que todos pudemos ver até à exaustão, via ecrã televisivo, dão-nos motivo para uma breve reflexão.
Primeiro: o Carnaval já não é o que era nos nossos tempos de menino e moço, nem nas nossas aldeias. Nessa altura, para além das diversões de rua, havia o domingo gordo que se saboreava à mesa, para prevenir os sacrifícios de jejum e abstinência que a Quaresma impunha. Mas na rua, também havia folguedo, com os mais afoitos, sobretudo com os rapazes a mascararem-se e a deambular pelas ruas principais, a meterem-se com tudo e todos, em sadia convivência. Era a forma de socialização permitida nos ambientes fechados das nossas aldeias, muito marcados pela religiosidade cristã – que era de facto muito expressiva nessa altura.
Algumas dessas recordações chegaram ainda até aos nossos dias, agora mais sofisticadas, é verdade, mas muito genuínas, de que são exemplo os Caretos de Podence – com os seus chocalhos e uma indumentária que dá nas vistas, as Máscaras de Lazarim, uma relíquia do nosso artesanato, com tudo o que lhe está associado e algumas outras manifestações no Portugal profundo, que a televisão descobriu e fez chegar às nossas casas.
Relevamos aqui, porque estamos em Vila Real, o Carnaval que Agarez – uma pequena aldeia quase encravada na Serra do Alvão, reinventou e trouxe até a cidade, com saliência para o desfile de Burros, muares a quem é dado o direito também de neste dia se exibirem, compensando-os do muito esforço físico que despendem no auxílio da vida agrícola. Parabéns, gente de Agarez, pela vossa coragem.
Depois: os desfiles carnavalescos que são a imagem de marca, do que se faz no Rio de Janeiro e hoje é exibido, de norte a sul do nosso país, com manifestações mais exuberantes no Algarve (Loulé, Albufeira...), em Sesimbra, em Torres Vedras, Mealhada, Ovar – aqueles de que nos recordamos mais.
São carros alegóricos cuja confeção exige uma arte indiscutível, são milhares de figurantes que, quer esteja frio, quer esteja a chover, desfilam, porque os também milhares de residentes e forasteiros presentes nas ruas e avenidas, assim o exigem. Não fazemos ideias dos custos financeiros destes desfiles, porque tudo isto é feito como se de investimento se tratasse para promover o turismo de cada uma destas localidades.
Quem somo nós para condenar este tipo de atividades, se elas são rentáveis e produzem efeitos na economia local? Seja-nos permitido porém, solicitar a quem de direito, como costuma dizer-se, para que se promovam mais as tradições locais do Carnaval genuíno. Terras de Miranda e tantos outros que nós não conhecemos, naturalmente, mas que sabemos terem existido. Isso sim seria dinamizar a cultura local e promover as localidades do interior tão abandonado.
Estamos certos que, investir nas tradições do passado, seria tão ou mais rentável, mesmo em termos turísticos, do que subsidiar o Samba que tentamos copiar, às vezes até com algum mau gosto.
Só não sabemos é se ainda vamos a tempo de o fazer.

