Autoeuropa
Esta empresa alemã, construtora dos veículos automóveis Volkswagen, sediada em Palmela no Distrito de Setúbal, tem sido notícia nos últimos meses, não apenas por estar a fabricar um novo modelo de automóvel – único em todo o universo empresarial daquele grupo, mas porque o clima laboral, que foi desde sempre apresentado como um modelo a seguir no sector industrial do nosso país, ameaça degradar-se.
Tanto quanto se sabe, os níveis salariais praticados naquela empresa da margem Sul do Tejo, não têm comparação com o que se verifica no resto do país. Trata-se afinal de um sector de ponta, com elevados níveis de qualificação dos seus operários, que dominam sofisticadas tecnologias, e por isso alcançam alta rentabilidade no processo de fabrico.
Todos recordamos o exemplar diálogo que existia entre a Administração da empresa e a Comissão de Trabalhadores, liderada ao tempo por uma figura emblemática – o Sr. Chora. Trabalhador apontado como exemplo no relacionamento entre administradores e administrados.
É na convergência de interesses que se encontram as soluções razoáveis. Neste caso concreto parece estar evidente a preocupação com os novos horários de trabalho, que a produção contínua do novo veículo T. Roc exige, e com os quais alguns trabalhadores não estarão dispostos a transigir.
Para se perceber a dimensão desta questão, referira-se que no Parque Industrial do Autoeuropa estão instaladas 19 empresas, com um total de cerca de 3000 trabalhadores, que se juntam aos cerca de 5000 da própria Autoeuropa. É um volume de pessoas que dependem do bom senso que se deve exigir a quem negocia, porque está em causa a sobrevivência financeira de dezenas de milhares de pessoas se somadas as respetivas famílias.
O diferendo na Autoeuropa não preocupa apenas as empresas fornecedoras e os trabalhadores do parque industrial, mas também os municípios da região de Setúbal – em particular o Concelho de Palmela. Muita gente ainda recorda a miséria e a fome que se viveu naquela região antes da chegada desta empresa, de que uma das vozes denunciantes foi o então Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, recentemente falecido.
Este não é apenas um problema local, tem dimensão nacional, e é por isso que o Governo tem vindo a acompanhar com atenção a situação, porque pressente que uma deslocalização da produção da Autoeuropa para fora do nosso país seria uma verdadeira catástrofe, muito superior, talvez, aquela que a devastação dos incêndios do último verão provocou em toda a região centro. A deslocalização seria uma catástrofe para a região, como declarou Alvares Amaro (CDU), presidente da Câmara de Palmela, esperançado apesar de tudo que trabalhadores e administração acabem por chegar a um acordo.
Mal se percebe que estando em causa uma tal ameaça, as organizações sindicais – em especial a CGTP do Sr. Arménio Carlos – (CDU), nunca se tenha pronunciado publicamente.
Porque não estamos a falar de salários mínimos, mas de mínimos salariais que ultrapassam os 1 500 € mensais, quase o triplo do que auferem, infelizmente, grande parte dos trabalhadores do sector privado e mesmo do sector público.
Daí que muita gente comente: na Autoeuropa andamos a brincar com o fogo.
Cuidado!

