Sabor Agridoce
1 – SABOR AMARGO
Na quarta-feira da semana passada o Primeiro-ministro disse aos funcionários portugueses que trabalham nas instituições europeias que 2017 foi um ano particularmente saboroso para Portugal. Será que foi? Referia-se ele a eleição de Mario Centeno para o Eurogrupo, que é uma vitória da diplomacia portuguesa. Na nossa interpretação, é sem dúvida uma vitória, uma vez que amarra definitivamente o tresmalhado Governo português, a uma política de rigor orçamental que a contragosto a Geringonça tem conseguido cumprir, conforme regra imposta pelo Tratado Orçamental.
Porém, esta declaração de António Costa mostra uma vez mais, que há um país para consumo externo e outra para consumo interno. Shakespeare, citado por Luís Marques (um colunista do Express 16 DEZ) escreveu que "as mais lindas flores crescem nos pântanos". Admitamos que a eleição de Centeno para presidente do Eurogrupo é uma bela flor da nossa diplomacia, um sucesso da política externa deste Governo. Mas ela brota justamente do pântano da politica interna. Porque se algum sabor o ano de 2017 deixa aos portugueses é o sabor amargo da tragédia, do caos no exercício do poder, na total ausência do Estado nas cumprimento dos deveres da defesa dos seus cidadãos, como sucedeu com os episódios vividos nos incêndios que devastaram quase um quarto do território do interior norte do país em que perderam a vida mais de uma centena de cidadãos e em que milhares de outros se viram desapossados, de um momento para o outro, dos seus bens patrimoniais, das suas casas, dos seus gados, das suas propriedades agrícolas. É este um ano de gosto saboroso, senhor Primeiro Ministro? Não, não é.
2 – O LIXO PERFUMADO
Do mesmo modo que se embandeira em arco, porque uma Agencia de Rating elevou os seus níveis de notação financeira, retirando a nossa economia do nível de lixo. Já não somos lixo, mas os problemas da nossa economia, continuam todos lá. Não é por borrifarmos com perfume que ele deixa de ser lixo, como judiciosamente qualificava João Vieira Pereira, um outro Jornalista do Expresso no seu Bloco de Notas (16 DEZ), exemplificando: Até Outubro deste ano, os bancos portugueses emprestaram às famílias € 11,7 mil milhões o que ultrapassa o total de credito concedido durante todo o ano de 2016 – Emprestaram igualmente no mesmo período 6.7 milhões para crédito ao consumo – o valor mais alto dos últimos 11 anos. O banco de Portugal já chamou à atenção para o exagerado crédito que está a ser concedido para aquisição de habitação (54.8 % de novos empréstimos só no mês de Outubro). O que está a fazer disparar também a subida generalizada dos preços das casas.
No dia em que deixarmos de ter os juros baixos, lá teremos de procurar quem pague as loucuras de hoje.
Parece obvio que estamos a crescer com o que não temos ou esperamos vir a ter no futuro, pedindo emprestado agora, convictos que um dia iremos conseguir pagar.
Foi esta ilusão de sucesso que nos levou á situação de falência em 2010/2011. É este sabor agridoce que estamos agora a experimentar novamente.
Desejamos a todos os leitores um Bom Ano de 2018, a viver, porém, com os pés bem assentes no chão.

