Construtores e Não Construtores
1 – Belmiro de Azevedo, falecido na semana passada, merece-nos uma palavra de referência, não porque a nossa relação fosse pessoal, porque foi apenas episódica – no dia em que se inaugurou em Vila Real o Modelo - loja Continente, grande superfície sediada na Timpeira, quando exercíamos funções autárquicas. Esta grande superfície comercial está hoje não apenas na nossa cidade mas também em Chaves e Régua. Muita gente falou já sobre este homem, natural de Marco de Canavezes, sempre em termos elogiosos, como um dos grandes construtores do Portugal Moderno pós 25 Abril de 74, eventualmente o maior empresário, com uma visão lúcida para o seu país. Com uma ideia definida, que nós também partilhamos, que é a de que só o trabalho gera riqueza. Belmiro de Azevedo colocou em prática esta máxima, tendo deixado a trabalhar, dependentes do seu Grupo SONAE, à volta de 70 mil pessoas, em vários países do mundo e não apenas em Portugal.
Assim não o entenderam as vozes dos que na Assembleia da República se opuseram ao Voto de Pesar que ali viria a ser aprovado, assinalando a morte de um cidadão português que durante mais de 40 anos outra coisa não foi do que ser construtor de uma sociedade, que só cresceu, porque a sua capacidade empreendedora deu os frutos que todos estamos a colher. É bom que haja forças políticas que defendam os interesses dos trabalhadores. Em nossa opinião, e da maioria seguramente dos que não tem uma visão retrógrada (marxista-leninista), Belmiro foi talvez o maior, se não o maior defensor dos trabalhadores – porque com o seu engenho e empenho, proporcionou emprego, para tantos milhares. Um construtor.
2 – Um texto de Clara Ferreira Alves, uma jornalista com voz independente, no Expresso (1 de dezembro) na sua coluna "Pluma Caprichosa" deixa-nos este apontamento sobre a forma como o Governo comemorou o seu Aniversário de Governação: No rescaldo dos incêndios que motivos sobram para um governo comemorar dois anos de vida? A um governo compete governar. Não compete comemorar ter governado...Não bastava a desolação moral de Pedrógão, o misterioso incidente em Tancos, o misterioso incidente do Infarmed (...), não bastava a desorientação e a capitulação perante os sindicatos e os reivindicações, não bastava a inexistência de um plano estratégico, qualquer plano estratégico, para um país a braços com uma dívida brutal e instável, não bastava a seca interminável, para deter um primeiro-ministro apostado em gastar dinheiro com «focus groups» no dia do aniversário. Como fez, a coberto do PS, a seguir a Pedrógão. Mandar uma agência de imagem convidar opiniões mediante o pagamento esmoler de duzentos euros em vales de compras (...) a fazer perguntas "espontâneas", é um gesto deprimente e indigno.
Esta colunista alonga-se em críticas mordazes, que nós nos abstemos de transcrever. Concluímos apenas que, este é um exemplo clássico do engana tolos, bem diferente do espírito exemplar que nos é deixado pelo empresário que honrámos atrás, que é bem um símbolo do que se exige aos construtores que não se autoelogiam em vida, ou em serviço, mas apenas quando cessam funções, se esse mérito lhes vier a ser reconhecido por terceiros.
Porque, como diz o ditado, elogio em boca própria é vitupério, que nunca abona em favor de quem o profere.

