Indignados
Este fim-de-semana saíram à rua das principais cidades, alguns milhares de cidadãos, a fim de mostrarem a sua indignação pelas calamidades públicas ocorridas no centro e norte interior do país, há poucos dias atrás, e nas quais o fogo, além de matar várias dezenas de pessoas, devorou pelas chamas, tudo o que encontrou pela frente – casas, terrenos agrícolas, animais domésticos, alfaias, muita floresta e mato. Tudo isso já é do conhecimento público. Como é conhecida também a revolta e a indignação das populações das áreas protegidas.
Esta indignação que se sente agora até nos grandes centros populacionais – já vinha sendo manifestada desde há muito, por todos aqueles que têm tido intervenção governativa – designadamente os autarcas, que desde sempre foram chamando à atenção para as consequências trágicas, que se poderiam prever e antecipar, resultantes do abandono do território e da falta de políticas de desenvolvimento a ele destinadas.
Provavelmente o Relatório do ocorrido em Pedrogão Grande, que nós não lemos, deve acentuar com toda a certeza que a dimensão da tragédia, só foi possível, porque o fogo, mais violento de que o normal encontrou centenas de hectares de terrenos agrícolas abandonados, de floresta indisciplinada, onde os incendiários, ou pirómanos (porque os há) encontram facilidade e até apetência para atuarem.
A propósito da Unidade de Missão para a Valorização do Interior que o atual Governo criou há cerca de dois anos, escrevemos mais de que uma vez que não lhe antecipávamos nenhum sucesso, por percebermos que o Terreiro do Paço, não estava empenhado, no processo de desenvolvimento do país rural e agrícola. Veja-se o Orçamento de Estado, atualmente em discussão, e extraiam-se as verbas e medidas consignadas, por exemplo, ao repovoamento florestal, em terrenos baldios, onde se poderia atuar de imediato. De especifico pouco ou nada se encontrará.
O Senhor Presidente da República saiu do seu Gabinete e muito bem tenta à sua maneira, consolar os familiares das vítimas e eventualmente deixar uma palavra de esperança em termos de afastar o desânimo que certamente se irá apoderar de muitos, que já não terão nem vontade, nem idade para vencer a adversidade. Quando há uns anos, um bom grupo de políticos, empresários e muita gente de sociedade civil se empenhou na causa do desenvolvimento do interior, designadamente do Norte do País, o Terreiro do Paço e quem à volta dele gravita, não só não ajudou, como veio a agravar o centralismo, de que uma das consequências é a morte prematura de parte significativa do território rural e das comunidades que nele viviam (dizemos viviam, porque efetivamente vão asfixiando numa morte lenta pré-anunciada).
Seja este gesto do Sr. Presidente da República um grito de revolta que entoe nos Centros do Poder – para que se alterem todas, mas todas as medidas erradas, ou mesmo a ausência de políticas, para a valorização do interior.
Requer-se um verdadeiro "Plano Marshall" mas não nos parece, que os agentes políticos estejam disponíveis nem preparados para o assumir.

