Gestão do Território
Um Presidente da Câmara da zona centro do país no momento e que o seu Concelho estava a ser devastado pelas chamas, perante a incapacidade que se percebia, de com os meios de combate disponíveis não haver outro solução que não fosse "o deixar arder", declarava (desapontado e desanimado) que um país cujo Estado não é capaz de defender o seu território é um Estado falido.
Na verdade, o que nos tem sido dado observar, através da informação que dia e noite chega até nossas casas, sobre o número diário de ignições (termo que já entrou no vocabulário de todos), a dimensão que os fogos atingem, os meios empregues no seu combate, não deixam ninguém indiferente e suscitam-nos incertezas e inquietações. Temos tido até a tentação de comparar, os serviços de Segurança Interna, responsáveis entre muitas outras coisas, pelo combate aos incêndios e à defesa do território contra as calamidades, com o Serviço Nacional de Saúde (coisas incomparáveis dir-se-á). Se estivéssemos tão inseguros na saúde, como estamos na defesa do território, há muito que teria havido uma sublevação pública. Felizmente que o SNS é um dos melhores do mundo e disso todos beneficiamos.
Têm razão portanto as vozes daqueles que como nós desde há muito, veem prevenindo para o colapso do interior do país, afirmando que 80% do nosso território estava abandonado e grande parte está agora ardido, em distritos como Santarém, Leiria, Coimbra e Castelo Branco. Nunca se viu um verão como este. Tantas tragédias, tal descoordenação e tamanhos incêndios a consumir tudo o que aparece pela frente: florestas, aldeias, casas e pessoas.
Perante esta calamidade, chocou-nos ler (não ouvimos) as palavras que um governante proferiu em entrevista à LUSA, na qual disse que o Governo fez a maior revolução que a floresta conheceu desde os tempos de D. Dinis (Público de 14 de Agosto). Palavras de Capoulas Santos – Ministro da Agricultura, sobre os diplomas relativos ao mundo rural acabados de promulgar. Então isto é sério?
E ainda acrescentou: este governo chegou à conclusão que era a hora da floresta, prioridade assumida com a designação dada ao seu ministério que passou a incluir também a palavra florestas.
Terá acontecido que durante estes dois anos nem uma árvore tenha sido plantada por ação do governo, tendo porém vindo à luz do dia, alguns diplomas legislativos sobre o mundo rural, cuja eficácia poderá ser vista, daqui a vinte ou trinta anos. Nessa altura o Engº. Capoulas poderá vir a ser cognominado como o novo D. Dinis.
Areia para os olhos dos portugueses, como se estes já não estivessem feridos pelo fumo insano dos fogos que devoram o interior do norte a sul. De facto, com tanta área ardida, está criado o cenário para uma verdadeira revolução, resultante do novo plantio e das medidas de ordenamento que poderão vir a ser introduzidas. Quem perdeu os seus terrenos florestados e muitos agricultados, esperava com ansiedade que o governante passasse das palavras aos atos. Pela forma porém como a administração pública e os meios complementares se comportam, dificilmente se acreditará que haja energia e saber para vir a fazer a verdadeira revolução do mundo rural.
O problema do interior não é só floresta nem a reforma florestal.
É uma questão de regime, de abandono do território e da falta de políticas que permitam inverter esta tendência.

