O Estado da Nação
Instalou-se o hábito de encerrar o ano legislativo da Assembleia da República, com o debate sobre o "Estado da Nação", a exemplo do que se faz lá por fora em regimes democráticos consolidados.
Parece-nos uma boa prática esta, de uma vez por ano pensar o país no seu todo. Infelizmente porém, raramente o conteúdo da conversa atinge os seus fins, porque os interlocutores – governo, partidos que o apoiam e oposição não se dão ao trabalho de passar a pente fino os "dossiers" da governação – Ministério a Ministério, dado a conhecer ao país em que medida os programas do governo estão a ser cumpridos e a oposição a lembrar o que ainda não tenha sido feito e a sugerir, eventualmente outras medidas que tomaria, em tal ou tal sector.
As horas de debate a que se assistiu nesta semana que passou, pouco tiveram a ver com o país real, mas apenas com um país imaginário que só existe de facto no hemiciclo onde se sentam os 230 deputados, que se esforçam, isso é bem notório, em fazer-se ouvir, para na comunicação social – essa sim, a verdadeira destinatária das palavrosas discussões e das tiradas mais ou menos engenhosas das criaturas que nos representam.
Uma palavra que fosse, sobre o estado da agricultura, da silvicultura, da pecuária, da indústria, do comércio, das vias de comunicação, da educação, da saúde, da segurança interna e externa... esse debate não existiu.
O que existiu, e nos merece um breve comentário, foi uma mini-remodelação governamental, dois dias depois ao nível de Secretários de Estado.
Tomámos boa nota, que foi criada uma Secretaria de Estado com a designação de Secretaria de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, na dependência do Ministério da Agricultura, que foi entregue a um Engenheiro Agrícola, que tem feito a sua vida pelo Algarve. Desejamos-lhe, boa sorte.
Mas, não deixamos de nos inquietar, com a dimensão da sua tarefa. Bastar-lhe-ia as florestas, sendo certo que mais de 50% do território nacional não tem nesta altura outra aptidão, que não seja a floresta. Agora juntar-lhe também o Desenvolvimento Rural, parece-nos tarefa impossível de ser levada a cabo por apenas um sector, ainda para mais, ao nível de Secretaria de Estado.
Ou será que quem imaginou esta remodelação entende que o desenvolvimento rural é só floresta? Não. O mundo rural, embora muito desprezado de facto, existe e necessita de medidas muito urgentes para que se faça a sua revitalização, não apenas com a floresta, mas também e sobretudo, na agricultura, na pecuária, na indústria repetindo-nos: fazendo o "desenvolvimento rural integrado" que tantas vezes temos abordado.
Não nos parece séria esta aposta, como não nos pareceu sério o debate sobre o Estado da Nação.
É o Estado que temos.

