A Morte do Interior
Esta fatídica catástrofe que se abateu sobre a zona centro do país, para além das declarações de circunstância que sempre se dizem e do dedo acusador que alguns querem apontar, em direção ao governo em funções, e outros mais generalizadamente a governos anteriores, dá-nos oportunidade de tentar ver um pouco mais longe.
Para quem vive no interior e acompanha o desenvolvimento do país, é muito claro, que o interior está a morrer paulatinamente. À medida que o despovoamento se acentua, vão sendo abandonadas as áreas cultiváveis e o que é ainda pior, essas áreas cultiváveis, nem sequer são aproveitadas para o plantio da floresta, que não tem as mesmas exigências de uma agricultura economicamente viável. Ou seja, o despovoamento tem acarretado também a desertificação dos territórios.
Diga-se, porque é verdade, que este fenómeno, não é uma consequência do Golpe Militar de Abril de 1974. Começou muito antes. Talvez na década de 50 e acentuou-se em 60, com o fenómeno da emigração para os países de Europa que acabavam de sair da 2ª Grande Guerra (França, Alemanha...) e para as províncias ultramarinas (era esta a designação oficial) cujos territórios ofereciam oportunidades que a Metrópole não dava.
O golpe militar de 74 prometeu: descolonizar, democratizar e desenvolver. Cumpriu, bem ou mal os dois primeiros (Ds), mas esqueceu o último. A adesão a Europa em 1985 acenou com ele, mas os Fundos que dali vêm têm tido em pouca conta o país real. Poder-se-á dizer que o 25 de Abril quedou-se nos corredores da capital. Não faltam vozes, de políticos mais afoitos, de académicos, de investigadores, a chamar à atenção para os riscos que o país corre, com este encolher de ombros do centralismo burocrático. Os autarcas em geral, cansam.se de chamar à atenção e vão, apesar de tudo, tentando fomentar algumas formas de desenvolvimento. Porém, politicas a sério tipo "Planos de Desenvolvimento Rural Integrado", para que tanto temos chamado a atenção, não passam do papel.
Houve uma tentativa política, vai para trinta anos, de tentar inverter a situação, quando se fez um referendo no sentido de criar Regiões Administrativas, por forma a agilizar mais as decisões relativas ao desenvolvimento dos territórios. Os líderes políticos sediados na capital mobilizaram-se e não permitiram tais veleidades. E tudo continuou na mesma. A descentralização para as autarquias é uma falácia. E as Direções Regionais dos diversos serviços continuam bem, muito obrigado, a despachar com o Terreiro do Paço.
É por isso, e só por isso, que o território continuará a arder. Em Trás-os-Montes e Alto Douro, pouco, porque a floresta herdada dos Serviços Florestais, há muito que desapareceu. E nas Beiras (Alta e Baixa) e Alentejo, é a mesma dor de alma. Os matos tomaram conta dos terrenos incultos, os seus proprietários foram-se para os grandes centros, para o litoral e para a emigração.
Não serão os Bombeiros, por mais meios que se deem para o combate, que evitarão que o interior continue a arder. A solução, não está nos Bombeiros. A solução, estará sempre na prevenção.
Mas esta, só será possível, com uma alteração das medidas de política para o desenvolvimento destes territórios, hoje, eufemisticamente, rotulados de territórios de baixa densidade populacional.
Para os desenvolver, nem sequer será necessário aumentar a sua densidade populacional. O que faz falta mesmo, é investimento real, palpável em políticas de fomento produtivo, designadamente na floresta.
Não paliativos!

