Para Além do Túnel
Nesta semana que passou um grave incidente dentro do Túnel do Marão fez-nos temer o pior. Ocasionalmente passámos no local no preciso momento em que começava a deflagrar o incêndio num autocarro de passageiros. Felizmente que, não houve vítimas humanas a lamentar. Os prejuízos com a completa destruição da viatura e os danos causados no piso e nos sistemas de segurança daquela obra de arte com certeza que estarão cobertos pela seguradora, pelo que, e no rescaldo do incidente é ocasião apenas par cuidar de saber das causas e das consequências do ocorrido e da forma como os mecanismos de vigilância e proteção se comportaram, visto que foi, o mais grave acidente ocorrido até agora.
As autoridades locais denunciaram imediatamente que se o Centro de Controlo e Vigilância estivesse nas instalações do túnel, construídas para o efeito, o alerta teria sido imediato e os meios de socorro teriam chegado muito mais cedo e teriam evitado parte dos prejuízos que aconteceram.
Numa decisão a todos os títulos lamentável e que deveria ser revertida, as Infraestruturas de Portugal desviaram o Centro de Controlo para uma sala em Almada, a 400 quilómetros desta enorme obra de arte, num lógica de gestão e otimização de recursos. Ou seja, centralizou-se a decisão, de um problema descentralizado.
Um articulista do JN (14 de Junho), condenando esta mania centralizadora de tudo no nosso país escrevia: porque carga de água, um país minúsculo como Portugal continua a canalizar recursos de todo o tipo para a capital, num exercício nefasto típico das nações subdesenvolvidas? E não me venham com a ladainha do costume. Isto não são os parolos do norte a protestar outra vez citando alguns exemplos: Com a Eurovisão é o que se vai ver. Com a candidatura da capital à sede da Agencia Europeia do medicamento.
Quando se construiu o Centro Cultural de Belém pessoalmente protestamos contra o gigantesco projeto e opinámos que, com metade da verba gasta, se construíram bons centros culturais em cada uma das capitais de Distrito (ainda havia essa malfadada figura administrativa). Protestamos igualmente quando a Federação Portuguesa de Futebol decidiu construir a Cidade do Futebol no Jamor, parecendo-nos mais sensato e racional que ela fosse localizada mais no centro do país – tipo Viseu, Guarda ou Covilhã, uma vez que os atletas que utilizam o complexo, se deslocam de todo o país.
Numa imagem feliz, o articulista que citamos, conclui: é quase como se as centenas de quilómetros que perfazem o território fossem um imenso túnel que vai dar sempre ao mesmo lugar.
É de facto, um modelo de desenvolvimento que só nos torna mais pequenos e que Camilo já denunciava no seu tempo em "A Queda de um Anjo".
Descentralizar no nosso país, como agora se vai anunciando? Só no papel.

