Uma Ideia Como Outra Qualquer
Fomos surpreendidos com um artigo de opinião, de um colunista que temos por sério (Henrique Raposo) no semanário Expresso (20 de Maio 2017), sob o título: "Velhos e Crianças", que não resistimos a trazer a este nosso espaço de comentário.
Antecipamos já, que muito naturalmente, alguns pediatras, educadores de infância e até pais, possam considerar que se trata de uma ideia ultrapassada. Mas dá para pensar. Conta o autor: a antiga creche da minha filha mais velha é o futuro. Tenho saudades daquele espaço que misturava velhos e crianças. Ou seja, era uma creche e um lar ao mesmo tempo.
Ora hoje parece-me evidente, escreve ele, que o futuro será composto por creches/lares que aprofundarão esta ideia (há experiências em vários países). Se nunca fez sentido separar os velhos das crianças, agora faz ainda menos.
Esta ideia não seria a solução mágica, mas ajudaria a combater a grande doença: a solidão que leva à depressão, a baixa natalidade, ao suicídio. Olhemos à nossa volta. Em Portugal, há mil idosos a viver sozinhos, passam semanas ou meses sem ver os filhos e netos. Temos a segunda taxa de divórcio mais alta da Europa (70%) e um dos índices de natalidade mais baixo do mundo (1.2 bebés por mulher).
Como sociedade, estamos a morrer em câmara lenta e, pior ainda, cada um de nós morre sozinho. E os novos crescem sozinhos também: os miúdos não tem irmãos ou primos, não brincam em espaços abertos, engordam, comem porcarias porque os pais não chegam a casa a tempo de lhes fazer um jantar decente.
Depois de outras considerações, o citado autor conclui: Debaixo da capa do país turístico, esconde-se esta solidão que explode no consumo apocalíptico de antidepressivos, na violência doméstica, no suicídio. Solução: Juntar velhos e crianças nos mesmos espaços ajudar-nos-ia a sair deste sufoco. Diluir a espessa tristeza dos lares de idosos com a alegria das crianças seria uma espécie de redenção coletiva e um acto de amor sem preço para aqueles idosos. E para os pais das crianças, esta poderia ser uma ajuda preciosa, não só ao nível da educação moral, mas também ao nível da gestão do dia a dia: haveria sempre alguém para ficar com os miúdos naqueles dias em que se não consegue sair da maldita reunião. No fundo, os nossos filhos ficariam não numa creche, mas numa casa de amigos.
Isto sem abordar os custos que representa uma creche, porque se sabe que o preço das creches é um dos grandes dissuasores do segundo ou terceiro filho.
Recordamos que na nossa infância, a interajuda entre os pais e os avós para educarem os filhos, era prática corrente. Até porque os pais, mesmo em meio rural passavam grande parte do dia fora de casa, e era na casa dos avós que as crianças cresciam. Era a grande família, onde os valores, os usos e costumes iam passando de geração em geração. Nas grandes cidades de hoje, as distâncias não consentem na maior parte dos casos, este apoio familiar, pelo que não custa aceitar que a ideia deste autor, possa merecer acolhimento, ou pelo menos uma reflexão para dar resposta às inquietações que esta situação da velhice dos pais e do apoio aos filhos coloca à geração activa.
Uma ideia como outra qualquer, como titulámos, com um profundo sentimento do valor família.

