Furação Norteamericano
Está tudo dito sobre este inesperado resultado das eleições para a Presidência do maior pais do mundo, os E.U.A.. Duas breves notas de análise a este fenómeno que tão intensamente nos envolveu a todos.
A primeira é para constatar, como o mundo está pequeno. Quem diria há trinta anos, que neste mês de outubro, em Portugal, em particular na última quinzena, as emissões televisivas e a imprensa praticamente nos invadissem o quotidiano, com este tema das eleições presidências norte-americanas. Bem sabemos todos, que os E.U.A são o líder do mundo ocidental e que não é indiferente para nenhum país do mundo, o que se passa na terra do Tio Sam. Mas o clímax que se gerou em torno desta disputa, com dois candidatos tão visceralmente contraditórios e, acusando-se mutuamente nas ações de campanha, da forma como todos vimos, apaixonou-nos, fez-nos pender para um lado ou para o outro, ainda que, em boa verdade, e não conhecendo a maior parte de nós a sociedade americana, tivéssemos feito todos juízos precipitados, de tal forma que na madrugada da quarta-feira que se seguiu à super terça-feira, muitos tenham dito que nos deitámos com a Sr.ª Hillary e acordámos com o magnata Donald Trump. Uma lembrança que nos ficará, e eventualmente uma lição que é dos livros, de não se devem deitar foguetes antes da festa.
Uma segunda nota critica, tem a ver com a forma como a comunidade internacional, estão a reagir a este verdadeiro terramoto político. Que não augura nada de bom em termos de conceito democrático. Quer-se goste, ou não, as eleições foram livres, os candidatos ao longo de mais de um ano foram expondo as suas ideias, pelo que a democracia funcionou.
E nos E.U.A, tanto quanto nós conhecemos de regime político, além do Presidente da República, há o Congresso, o Senado e o Supremo Tribunal. Qualquer destes órgãos é soberano, sendo o controlo exercido pelo mútuo consentimento, dos diferentes órgãos de poder.
Deixemos pois o sistema democrático a funcionar, abandonando esta ideia espúria das manifestações de rua, e tenha-se esperança no conselho de André Malroux, um eminente sociólogo que foi ministro de um Gabinete em França, que sabiamente escreveu: que nunca um Radical (referindo-se ao Partido Radical da altura) foi Ministro, como nunca nenhuma Ministro foi radical. Isto para dizer que, uma coisa é a campanha eleitoral (nem sempre muito limpa) outra coisa a realidade dos factos e das coisas. Que nem sempre coincidem, com o que se afirma em campanha.
Por último, uma nota sobre o que deve esperar o nosso país, tão dependente em termos políticos de que se passa à nossa volta, citando um articulista credenciado Miguel Monjardino (Jr. Expresso de 12 de Novembro): No final de 2016, Portugal tem à sua frente uma paisagem muito diferente da que era habitual nas últimas décadas. A eleição de Donald Trump, a opção do Reino Unido pela saída da União Europeia, a maré populista na Hungria, Polónia, Itália, Eslováquia, Noruega, Lituânia, Finlândia e Suíça, a pressão militar russa para a regeneração das regras e geografia da ordem e segurança europeia e a implosão do mundo árabe significa que o mapa desenhado no Conceito Estratégico de Defesa Nacional de 2013 está obsoleto.
Espera-se uma onda de antiamericanismo no continente europeu, o que para um país pequeno e vulnerável como o nosso, não pode deixar de preocupar.
Enfim, uma preocupação que o nosso governo terá de ter em atenção. Mas não será certamente com o incitamento à revolta quer de rua, quer dos comentadores, que levamos a água ao nosso moinho.
Deixemos que as instituições americanas, e já agora as portuguesas, funcionem normalmente.