Afetos que nos Chegaram
O Professor Marcelo, investido nas funções de Presidente da República de todos os portugueses, andou por aí na última semana, percorrendo uma boa parte das terras transmontanas, cuja população, sobretudo as entidades locais, acorreram a acolher e a guardar os seus afetos.
Não acompanhámos pessoalmente todos os seus passos, porque a sua pedalada é larga, mas tivemos um encontro fugaz no Espaço Torga (S. Martinho de Anta) e fomos registando os ecos, através da imprensa, dos seus comentários a propósito do que lhe foi dado ver. Mas, como é natural, nestas visitas meteóricas, o que registamos foram as coisas boas que vão acontecendo, como sucedeu com a sua presença na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), ou melhor, no Parque de Ciência e Tecnologia, onde se inteirou sobre a Plataforma de Inovação da Vinha e do Vinho, e provou os vinhos Alumni UTAD, produzidos por uma nova geração de enólogos que foram antigos alunos da Universidade, vinhos que, conforme foi sublinhado têm contribuído para a visibilidade internacional que se tem registado neste sector.
Retemos as palavras mais emblemáticas que foi proferindo, porque tão coincidentes com o que muitos de nós, que aqui vivemos, andamos a dizer há dezenas de anos. Abordou o tema da descentralização, referindo que para a defender pode haver ideias diferentes, mas que não há ninguém que no seu bom senso não defenda para Portugal a descentralização. E continuou, onde ela é mais difícil ser atingida em termos institucionais está a surgir pela vontade das populações, pelo dinamismo dos autarcas e pela criatividade das Universidades.
Ao ler isto, não podemos deixar de recordar o pioneirismo daqueles que há trinta anos lutaram localmente e regionalmente, por um novo modelo de governação para o país, sob a ideia da regionalização, de resto prevista na Constituição, para obstar ao Centralismo Lisboeta, que levou ao empobrecimento do país e sobretudo ao despovoamento de dois terços do território nacional.
Nessa altura não tivemos a voz forte de um Presidente da República, para ajudar a levar por diante esta ingente tarefa política, de reverter para o interior aquilo que lhe tem sido retirado, com as consequências de abandono que estão à vista. Mas, nunca é tarde para se mudar de opinião, como parece ser agora a do atual inquilino de Belém.
Em Santa Marta de Penaguião foi mais longe quando afirmou ser necessário criar uma Unidade de Missão para o Douro e depois já em Alfandega da Fé, que mais do que uma Unidade de Missão para a valorização do interior, como o atual governo defende "é necessário criar um grupo de ação preocupado especificamente com a região de Trás-os-Montes e Alto Douro," justificando esta sua posição ao afirmar que as terras e as gentes de Trás-os-Montes merecem mesmo um tratamento especial, sobretudo na distribuição dos Fundos Comunitários.
Com o peso institucional que a Presidência quer dar à sua ação, aqui se regista esta tomada pública de posição. E ficamos à espera, que se passe das palavras aos atos. Porque, e aqui recordamos nós ao comentador Marcelo, o desenvolvimento de país só atingirá níveis mínimos decentes, quando se inverter a tendência do centralismo e se olhar para as oportunidades de investimento que há no interior.
Mas isto, com o devido respeito, só se conseguirá, com novas práticas políticas de governar.
Sonhos de alguns há mais de trinta anos.

